ENTREVISTA:
PEDRO DA CUNHA E MENEZES
[ TRILHA TRANSCARIOCA ]

[ R2L ] O que é a Trilha Transcarioca?
A Trilha Transcarioca cruzará o Rio de Janeiro por um percurso de aproximadamente 180 km, saindo da Barra de Guaratiba até o Morro da Urca, aos pés do Pão de Açúcar. Durante o seu trajeto, o visitante terá a oportunidade de apreciar atrativos naturais pouco conhecidos da cidade e descortinar a Cidade Maravilhosa de ângulos inusitados. A trilha poderá ser percorrida na sua integralidade ou em seções, de acordo com o interesse, a aptidão e a disponibilidade de tempo de seus usuários.

100% dela sempre foram abertos ao público. A Trilha Transcarioca não é nova. Ela, na verdade, nada mais é que a conexão de várias trilhas que existem há décadas nos morros cariocas. A novidade é que hoje temos cerca de 75% da Trilha Transcarioca sinalizada com a marca da botinha pintada em árvores e rochas. Quando estará totalmente sinalizada? Em breve. Tão logo os voluntários que fazem a sinalização consigam disponibilizar horas suficientes de seu tempo livre para terminar a tarefa.

[ R2L ] Como surgiu a iniciativa?
A Trilha Transcarioca é um movimento bem amplo que conta com 11 mil simpatizantes, 1.000 voluntários ativos, bem como  servidores de Parques das esferas federal, estadual e municipal. A ideia vem de 1996 quando Pedro da Cunha e menezes terminou de percorrer a Trilha inteira pela primeira vez. De lá para cá o projeto vem saindo do papel aos pouquinhos.

[ R2L ] Que tipo de estrutura o visitante pode esperar encontrar?
Ainda estamos nos primórdios da implementação da Trilha Transcarioca. Não temos uma secretaria executiva com tempo de dedicação integral, não temos orçamento próprio: dependemos exclusivamente do entusiasmo dos nossos voluntários e do idealismo dos profissionais dos Parques do Mosaico Carioca de Conservação. No momento, nosso objetivo é terminar a sinalização direcional com marcas pintadas e tabuletas em toda a extensão da Trilha. Já conseguimos isso na totalidade do Parque Natural Municipal de Grumari, do Monumento Natural Municipal do Pão de Açúcar, da orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, das matas do Museu do Açude e do Parque Nacional da Tijuca. Isso junto soma quase 80 km. Além disso, também já estão sinalizados mais de 30 km da Trilha Transcarioca no Parque Estadual da Pedra Branca.

Em nosso site já estão disponíveis mapas de vários trechos, estamos tentando mapear os outros e vamos publicá-los em breve. Alguns trechos já foram manejados para trocar partes excessivamente íngremes por zigues-zaques. Já temos alguns mirantes, pontes suspensas e corrimãos instalados. A verdade é, contudo, que ainda falta muito a fazer.

[ R2L ] De que forma a Trilha Transcarioca é divulgada para visitantes da cidade?
Temos uma página no facebook e um site cuja informação ainda está sendo enriquecida, pois sua atualização depende sobretudo de trabalho voluntário. Por outro lado, divulgar a Trilha Transcarioca como um produto de turismo de massa não é nosso objetivo. A divulgação tem sido, sobretudo, de boca em boca. Preferimos assim, pois queremos que o aumento da visitação aconteça de forma lenta e com gente que realmente gosta do mato e da natureza. A Trilha Transcarioca deve crescer em sintonia com a nossa capacidade de melhorar seu traçado, manter a sinalização e fazer o manejo necessário. Ela precisa ser sustentável, pois atravessa áreas de conservação da natureza. Nesse sentido, sua visitação precisa ter algum ordenamento e muito respeito pelo meio ambiente.

[ R2L ] De que forma a Trilha Transcarioca é divulgada para visitantes da cidade?
Temos uma página no facebook e um site cuja informação ainda está sendo enriquecida, pois sua atualização depende sobretudo de trabalho voluntário. Por outro lado, divulgar a Trilha Transcarioca como um produto de turismo de massa não é nosso objetivo. A divulgação tem sido, sobretudo, de boca em boca. Preferimos assim, pois queremos que o aumento da visitação aconteça de forma lenta e com gente que realmente gosta do mato e da natureza. A Trilha Transcarioca deve crescer em sintonia com a nossa capacidade de melhorar seu traçado, manter a sinalização e fazer o manejo necessário. Ela precisa ser sustentável, pois atravessa áreas de conservação da natureza. Nesse sentido, sua visitação precisa ter algum ordenamento e muito respeito pelo meio ambiente.

[ R2L ] Existe uma distinção clara no comportamento de cariocas e visitantes percorrendo a Trilha?
De certa forma. Pessoas que caminham há mais tempo tendem a ter um comportamento mais ambientalmente correto. Olham menos a sinalização, não arrancam plantas, não pegam atalhos não pixam. Parte dos outros ainda estão aprendendo a se comportar.

Os estrangeiros já trazem a cultura de caminhar e de seguir a sinalização de seus países de origem, onde trilhas sinalizadas são comuns.

[ R2L ] Em diversos países, as trilhas são atrações consideradas “mainstream” em regiões. Apesar de ser referenciado pela sua natureza exuberante, o Rio ainda tem muito a caminhar nesse assunto?
O Rio e o Brasil estão imensamente atrasados em relação ao resto do mundo. Para se ter uma ideia de nosso atraso, os cerca de 75 milhões de hectares do Sistema Federal de Unidades de Conservação Brasileiro contam, em sua totalidade, com menos de 300 km de trilhas sinalizadas. Já o Sistema de Florestas Nacionais dos Estados Unidos, com tamanho similar (cerca de 73 milhões de hectares), tem 225 mil km de trilhas sinalizadas. No outro extremo de tamanho, a Ilha de Dominica, um diminuto país caribenho, com 70 mil habitantes e 75 mil hectares de área total, possui cerca de 250 km de trilhas sinalizadas, dos quais 183 contínuos em uma Trilha de Longo Percurso, a Waitakubuli National Trail.

Outro exemplo que merece ser citado, pela sua reduzida área geográfica, é o da Eslovênia. O país europeu, de apenas 20.256 km² (menor que o menor estado brasileiro – Sergipe tem 21.910 km²), tem uma malha de sete mil quilômetros de trilhas sinalizadas. Vale também mencionar uma unidade de conservação na África do Sul, país com nível de desenvolvimento similar ao Brasil. O Parque Nacional da Montanha da Mesa, de 25 mil hectares, tem 600 km de trilhas sinalizadas. Para terminar a ilustração, seguem alguns números dos totais de trilhas sinalizadas em outros países europeus: Alemanha: 260 mil km, França: 180 mil km, Suíça: 50 mil km, Espanha: 14 mil km, Suécia: 6 mil km, Holanda: 5 mil km, Bélgica: 4.300 km e Portugal: 1.500 km.

Ou seja, no Brasil tudo ainda está por fazer. Enquanto em outros países as trilhas geram emprego e renda, por meio de abrigos, pousadas, equipes de manutenção, equipamentos de montanha nós nem temos a infraestrutura de trilhas que pode ser geradora dessas oportunidades de emprego e renda. A Trilha Transcarioca ainda está engatinhando….estamos nos esforçando para completar sua sinalização. É pouco, mas é um começo. Esperamos que seja o início de uma mudança de atitude nacional.

[ R2L ] Historicamente, a falta de sinalização na cidade do Rio é uma das grandes reclamações dos turistas. Como contornar esse problema para que a trilha seja cada vez mais conhecida?
A sinalização da Trilha Transcarioca segue padrões de sinalização de trilha usados no mundo inteiro. A sinalização não é cara nem complicada de ser feita. Assim como na Europa, nos Estados Unidos, na África, no Caribe, na Argentina, na Austrália, enfim, no mundo inteiro, a sinalização combina setas ou marcas de pegadas pintadas em rochas ou árvores com tabuletas de madeira. Chama-se sinalização rústica. Os 3.600 km da Appalachain Trail usam esse sistema, a Pacific Crest Trail, do filme Wild, as trilhas de longo curso europeias, como o Caminho de Santiago, entre outras milhares de trilhas, também utilizam esse sistema, cuja técnica, princípios e regras gerais estão bem descritos no manual http://sinalizetrilhas.wikiparques.org/.

[ R2L ] Qual o próximo passo?
Já no livro que lançou a ideia da Trilha Transcarioca, publicado em 2000, havia o objetivo de que ela fosse o embrião de uma trilha pela Mata Atlântica no litoral do Brasil, uma Appalachian Trail brasileira. WWF e ICMBio. Assim nosso objetivo de longo prazo é que, ao mesmo tempo em que melhoramos a Trilha Transcarioca, vamos incentivando a criação pelo Brasil afora de outras trilhas de longo curso devidamente sinalizadas e bem manejadas.

[ Bio ]
Pedro da Cunha e Menezes é montanhista e coordenador de Imprensa da Trilha Transcarioca.
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