ENTREVISTA:
PHIL RAJZMAN
[ SURF NO ALEMÃO ]

Foto: Fellipe Ditadi

[ R2L ] Como você divide o seu tempo entre tantas atividades?
Minhas prioridades são as gravações do programa “9 Pés” do canal OFF, os circuitos mundial e brasileiro de Longboard. Quando não estou viajando, me dedico à Monkey Board, minha empresa de pranchas de equilíbrio, usadas em diversas atividades, como surf, artes marciais, slakline, skate, pilates e fisioterapia. Normalmente, divido meus dias em manhãs dedicadas ao surf e as tardes são dedicadas à todas as outras questões.

[ R2L ] O Rio respira esporte. Como identificar e estimular a formação de novos talentos?
Devido às suas áreas urbanas livres, o Rio é praticamente um parque natural que estimula a prática do esporte. E isso acaba sendo passado de geração a geração. Há também hoje em dia uma conscientização grande do esporte como forma de gerar saúde, bem estar e integração social. O esporte é fundamental, e os novos talentos do surf, no meu caso, encontro no meu dia-a-dia mesmo. Direciono as crianças para escolinhas (particular ou social), pois acredito que, tendo um professor, alguém que ensine a eles a forma correta de se praticar o esporte, focando inclusive na segurança, a criança tende a se desenvolver muito melhor. Além disso, a presença de ídolos, figuras notáveis no esporte, pode despertar o interesse deles e acho que as Olimpíadas do Rio irão ajudar muito com esse estímulo.

[ R2L ] Como surgiu o projeto Surf no Alemão?
Surgiu de uma vontade minha de trazer para as pessoas tudo de bom que o esporte me proporcionou. É uma crença pessoal, que tudo que fazemos para o outro acaba sendo refletido em nossa vida. Eu amo estar no mar, pela energia que ele me proporciona. Apesar das dificuldades de viver do esporte no Brasil, ele tem uma característica de unir as pessoas sem distinção de religião, sexo, raça ou classe social. Por conta disso, fiz muitas amizades que, por falta de estímulo ou assistência, acabaram desistindo do esporte. O surf é um esporte caro e, para dar utilidade aos meus aparelhos antigos de competição, passei a doá-los para que pudessem ser aproveitados por outras pessoas. Neste processo conheci o “Surf no Alemão” através do criador e coordenador do projeto Wellington Cardoso.

[ R2L ] Qual o próximo passo?
Que ele seja sustentável, tenha um incentivo fiscal, um patrocínio, uma forma de se manter sozinho, sem a necessidade dos recursos particulares de ninguém. Há três anos venho tentando aprovar um projeto que tem o “Surf no Alemão” como um dos beneficiados, mas ainda não aconteceu.

[ R2L ] Que tipo de legislação e/ou iniciativa poderia facilitar a abertura de novos projetos para o surf no Rio (ou no Brasil)?
O longboard carioca não tem eventos profissionais desde 2011 quando Rico de Souza realizava etapas do circuito Brasileiro na praia da Macumba -pico mais tradicional do longboard brasileiro. Fruto deste legado deixado por Rico são os 4 atletas atualmente na elite do circuito mundial de Longboard WSL – Rodrigo Sphaier, Jeferson Silva de Saquarema, Chloé Calmon e eu do Rio de Janeiro – todos nós entre os top 16 do mundo.

A etapa carioca do mundial de pranchinha WSL recebe incentivo do Governo do estado do Rio de Janeiro, mas devido à falta de patrocínio e incentivo aos eventos locais, não temos nenhum atleta nos representando neste circuito. A Federação de Surf do Estado do Rio de Janeiro (FESERJ), presidida por Abílio Fernandes, é atuante e está sempre buscando formas de estimular a realização de eventos amadores através do circuito estadual e das associações de surf de todo o estado, que vai de Grumari a Campos. Entretanto, quando os atletas chegam no nível profissional, não tem mais eventos para participar nem apoio para continuar. Não sei o que poderia ser feito para facilitar essa abertura de novos projetos, mas é preciso que algo seja feito para voltarmos a ter eventos como os que o Rico de Souza realizava e, assim, garantir o legado para o futuro do surf carioca.

 

Foto: Felipe Fiorito

 

[ R2L ] O Brasil vive um momento ímpar no circuito internacional de surf. O apoio público e privado para o esporte é proporcional?
Vivemos um momento ímpar no circuito mundial WSL, mesmo sendo um esporte considerado novo no Brasil, sendo que já temos 3 títulos mundiais. Estamos em um momento de retorno de imagem, mídia, patrocinadores, etc., proporcionando a alguns atletas da elite que recebam os benefícios que merecem. Entretanto, isso não acontece em todas as categorias. Isso é o início, os primeiros passos para que possa se expandir e valorizar outros atletas. A nova geração já está crescendo com o incentivo desses resultados. O surf venceu o preconceito que existia na época que comecei, por exemplo, e hoje já é visto e reconhecido como esporte. Além disso, na próxima Olimpíada de 2020 que vai acontecer no Japão, o surf estará incluso como esporte de exibição, se tornando uma oportunidade de trazermos mais medalhas olímpicas para o país.

[ R2L ] Como aproveitar o momento para gerar oportunidades para o esporte no país?
O momento está muito favorável, a mídia tem divulgado bastante. A televisão -sobretudo o canal OFF, junto com outros canais como Woohoo – tem contribuído muito pra isso, mostrando a história do surf no Brasil. O Rio tem um papel fundamental, levando conhecimento sobre o esporte para o Brasil inteiro, inclusive para lugares distantes do mar. E isso tudo se deu, sobretudo, pelos títulos mundiais conquistados por mim em 2007, pelo Medina em 2014 e pelo Mineirinho em 2015. E acredito que não vá parar por ai, pois temos vários atletas com condições de ganhar título.

[ R2L ] Você já participou de diversos programas sociais. Quais se destacam positivamente? Por quê?
Todo projeto social que visa à integração da criança é positivo. O estudo é fundamental. Um dos motivos do Surf no Alemão ter um foco social é que o Welington Cardoso, coordenador do Projeto, mantém reuniões mensais com os pais das crianças participantes, cobrando boletins e condicionando a participação no Projeto ao bom desempenho escolar. Paralelamente ao esporte, é preciso existir a consciência de que o estudo é fundamental, e de que todos os projetos que unem essas duas coisas estarão gerando cidadãos de bem. Além de possíveis campeões.

[ R2L ] Existe algum programa social de sucesso no exterior que você gostaria de trazer para o Brasil?
Um programa social que vejo nos países desenvolvidos e que gostaria de ver no Brasil é o incentivo dado pelas instituições de ensino através de bolsas de estudo aos atletas de ponta. Este incentivo garante resultados positivos para a carreira do atleta e prepara o mesmo para o mercado de trabalho pós-carreira.

[ R2L ] O que é ser carioca?
Ser carioca é viver em contato direto com a natureza, em um lugar onde se vê de tudo um pouco. O Rio é uma cidade referência, com os contrastes entre os esportes, a natureza e os problemas de toda grande cidade. Isso é muito positivo, pois torna possível enxergar as diferenças e as similaridades. É um lugar de conflitos, mas é uma cidade maravilhosa, que encanta não só os turistas mas também quem vive aqui. Através do surf, conheci muitos lugares do mundo e é muito bom poder viajar. Mas também é muito bom voltar pro Rio, apesar dos problemas e dificuldades.

[ R2L ] O que ainda pode melhorar?
A base de tudo é a educação. Melhorando a educação, melhoramos a saúde, a segurança e todo resto. A maioria da população ainda não tem acesso às informações por completo, e essa transição política que estamos vivendo no país pode ser positiva. Os valores dos antigos comandantes estavam totalmente invertidos e acabaram tornando-se referência para as mentes com menos informações. Acredito que estamos em um processo de transformação social, principalmente pelas mãos do povo, que está indo às ruas exigir seus direitos. Se conseguirmos transformar essa educação, melhoraremos em todos os pontos do processo.

[ Bio ]
Phil Rajzman é campeão mundial de surf e um dos gestores do projeto Surf no Alemão.

[ Contato ]
www.philrajzman.com.br

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