ENTREVISTA:
RODRIGO SIMÃO
[ DA MATÉRIA-PRIMA À OBRA DE ARTE ]

A casa do arquiteto em Petrópolis: integração com a natureza e destaque em várias publicações especializadas

[ R2L ] Goethe dizia que “a arquitetura é música petrificada”. Atualmente, a arquitetura vai muito além da construção em si. O que é arquitetura para você?
A arquitetura interfere diretamente no modo e na qualidade de vida, podendo definir muito do futuro das atividades humanas no planeta, de trabalho, lazer, educação, de toda uma sociedade que está sendo construída. Que identidade terá essa sociedade? Que espaços ela habitará? O que se leciona? Em que tipo de escola? O modo de vida é resultado da cultura urbana e doméstica de um povo, é resultado do lugar, o que na essência é o objeto de trabalho do arquiteto. A profissão pode vir a enriquecer a experiência de vida nos lares e nas cidades do mundo. Há muitos artistas trabalhando na escala da arquitetura, e também arquitetos que trabalham no limite entre arte e arquitetura, demonstrando o potencial artístico da experiência espacial de uma obra arquitetônica. Existe também uma forte tendência de adequação a novos paradigmas ambientais de desenvolvimento, que devem guiar daqui em diante muito do processo construtivo e projetual. A arquitetura está se fundindo muito com a ciência, as soluções muito condicionadas à técnica e aos projetos complementares – hidráulica, elétrica, climatização.

[ R2L ] O brasileiro valoriza pouco sua história. E muitas vezes simplesmente não valoriza a arte que o envolve. Como mudar esse cenário?
O Brasil é um grande país criador, que assimila em sua cultura tanta diversidade de tantos povos… É um caldeirão cultural. O mundo tem os olhos muito voltados para o Brasil por isso, por ser um lugar que tem oxigênio, oportunidades, espaço e condições para trabalhar, recursos materiais e humanos. Está tudo por fazer aqui, principalmente na área de desenvolvimento urbano, educação e cultura.

[ R2L ] O Rio tem uma natureza única. Essa inestimável riqueza natural contribui para uma sub-valorização do que é cultural?
Acredito que essa riqueza natural produz outro tipo de cultura, que não é de museus e salas  de concerto mas de uma cultura urbana muito rica e intensa, musical, caótica, colorida, gastronômica. Uma cultura que congrega, produz e atrai artistas de toda parte.

[ R2L ] A casa que você projetou e construiu para morar se tornou uma referência de integração com a natureza, recebendo destaque em diversas publicações especializadas. A relação de um arquiteto com uma casa feita para si mesmo se altera com o passar do tempo?
É uma experiência muito importante para um arquiteto habitar um espaço que projetou, um verdadeiro laboratório de aprendizado. Minha casa foi feita ao longo de 10 anos, considerando piscina e anexos, os 2 estúdios de trabalho da minha esposa, meu pequeno estúdio de música, lavanderia. Com o tempo, o programa foi se expandindo em busca de espaço, adaptando-se às duas filhas que vieram, demandando espaço principalmente para brinquedos. A relação é muito interessante não só pela proposta espacial da arquitetura e a integração com a natureza, que é extremamente prazerosa, mas para avaliação efetiva (na própria pele) da adequação das soluções arquitetônicas e da perenidade dos sistemas construtivos adotados.

A paixão por design de móveis fica evidente no deck da casa

[ R2L ] Construir a sua própria casa ajuda a estabelecer um parâmetro sobre qual o seu verdadeiro estilo arquitetônico?
Com certeza. Ali aprendo constantemente com todas as ideias que funcionaram bem. Tenho uma satisfação enorme com o resultado. Meus projetos posteriores são bastante influenciados por conceitos ali desenvolvidos, a citar: a materialidade, a integração com o local, o experimentalismo, o tecnicismo, a otimização de recursos, a linearidade que faz ela pertencer ao chão e ao lugar.

[ R2L ] Além de arquiteto, você hoje é um badalado designer de móveis. Como foi essa ampliação de escopo?
Começou com o convite de um grande amigo, o Pedro Bernardes. Em 2000/2001, ele pediu ajuda para construir um móvel idealizado para o seu filho. Era uma mistura de berço com harpa. Nesta rica experiência, adquiri gosto pelo uso precioso da madeira na luteria.  Em 2012, o berço-harpa foi exposto na feira Design Days Dubai. Naquela ocasião, o Pedro e eu participamos como orientadores de um grupo e de um workshop chamado ‘Sit and Shade’, para confecção de mobiliário urbano sombreado a partir de pallets de madeira. Tivemos 3 dias para a construção do protótipo em uma oficina da faculdade de Manipal, e as meninas do grupo ganharam o 1º prêmio na competição. Quando voltei de lá, atraiu-me a ideia de fazer peças a partir de resíduos das minhas obras. Tenho feito isso desde 2012, a princípio sem compromisso, para a minha casa. Em 2014, ao increver-me iniciante no concurso de design ‘Idea Brasil Awards’, fui premiado com a cadeira de balanço ‘Feijão’. A partir dali, obtive algumas premiações e colocações entre finalistas em outros concursos de design. Mais do que isso, verifiquei que há espaço para ideias que envolvem a transformação de material, envolvendo mais mão-de-obra do que extrativismo. Esse conceito está alinhado com várias práticas correntes pelo mundo, como o cradle to cradle – cadeia produtiva de lixo zero.

[ R2L ] A sua cadeira ‘Feijão’ foi disputada por grandes colecionadores de design em Paris esse mês. Existe consagração maior que essa?
Foi realmente surpreendente o resultado. O valor superou em 9 vezes o lance inicial. Foi vendida para o maior colecionador de cadeiras de design da Europa, um suíço que tem mais  de 1.500 cadeiras de design na sua coleção. A peça, que tem série limitada a 80 exemplares, já tem fila de espera.

[ R2L ] Arquiteto consagrado, designer de móveis disputados, e você ainda flerta com artes plásticas e poesia. O que falta? Quais os próximos passos?
Tenho feito projetos de residências, espaços comerciais e peças de design. Tenho diversos projetos urbanos e arquitetônicos para Petrópolis, cidade em que concentro minha prática. São projetos de grande viabilidade, que contribuirão para a paisagem urbana, a identidade e a qualidade de vida na cidade. Isso é parte do sonho. Outra parte é criar, aos poucos, um liceu de confecção e aprendizado de design e arquitetura. Talvez uma faculdade de arquitetura, em Petrópolis, para se tornar referência mundial, e contribuir para o desenvolvimento da cultura da beleza nesta cidade.

A consagrada cadeira 'Feijão' (acima) e a nova aposta: a cadeira 'Sol', premiada no prêmio Objeto Brasil 2016

[ Bio ]
Rodrigo Simão é arquiteto, formado pela FAU-UFRJ, trabalha com projeto, construção e design.

[ Contato ]
www.rodrigosimao.com.br

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