ENTREVISTA:
VANESSA BRAUN
[ RIO GENTIL ]

Foto: Divulgação

[ R2L ] A ideia de criar o Rio Gentil surgiu após a perda da sua mãe. O que você acha que ela diria do projeto?
Minha mãe era uma pessoa muito generosa, acolhedora e que tinha um prazer real em ajudar as pessoas. Era assim que ela se sentia feliz. Seria, sem dúvida alguma, grande entusiasta destes passeios. Queria muito que ela tivesse participado do nascimento do Rio Gentil. Sempre fiz planos de fazermos tantas coisas juntas, e a vida sempre ia adiando. Com o Rio Gentil, teríamos tido essa oportunidade. É uma pena que a minha ação só tenha surgido após a partida dela, mas de uma certa forma foi esse vazio que me inspirou e me moveu.

[ R2L ] Quais são as principais dificuldades encontradas pelo projeto?
Sempre achei que as dificuldades seriam viabilizar as atividades em si, os ingressos, o transporte e etc. Mas por incrível que pareça a maior dificuldade é incentivar os idosos a participar. Nem sempre eles estão dispostos, já que o próprio corpo deles pode ser um obstáculo. Nunca forçamos a irem aos passeios, só incentivamos. Muitas vezes eles querem participar mas têm receio de se sentirem mal ou “darem trabalho”. No início não tínhamos intimidade e eles não nos conheciam. Ficavam inseguros. Hoje já sabem e confiam que faremos de tudo para que eles se sintam bem. Nós voluntários também fomos aprendendo sobre as dificuldades e problemas de cada um. Hoje em dia, já sabemos os que requerem braços mais fortes, ou aqueles que requerem apenas bons ouvidos.

[ R2L ] Que tipo de iniciativa e/ou apoio do governo pode facilitar a abertura de novas iniciativas como a sua?
Muitas pessoas querem (e precisam) ajudar, mas esbarram no problema de não saber por onde começar, quem procurar, em quais instituições confiar. O governo poderia criar seminários e workshops para reunir essas pessoas com os projetos sociais existentes e, juntamente com a iniciativa privada, promover e divulgar esses encontros. Outro auxílio importantíssimo seria desburocratizar a formalização desses projetos. Eu, por exemplo, ainda não consegui regularizar o Rio Gentil. Agora estamos fazendo uma rifa para angariar verba e contratarmos um contador. A lei do idoso no Rio de Janeiro também não nos auxilia, as empresas privadas têm verbas destinadas a isso, mas no Estado do Rio essas verbas passam por muita burocracia para virarem incentivo efetivo. Há muito a ser feito, e o governo tem papel fundamental nessa “desburocratização”. Sem comprometer a regulamentação e fiscalização, que também são importantes.

[ R2L ] Existe algum exemplo de projeto social no exterior que você gostaria que fosse realizado no Brasil?
Um projeto social específico não, mas gostaria muito que o Brasil incentivasse os projetos de moradia de convivência assistida, como acontece nos EUA.  Lá os condomínios são construídos para esse fim, unindo o governo (que zela pelas classes menos favorecidas) e a iniciativa privada. Os interesses comerciais não precisam ser descartados, desde que sejam compatíveis com a dimensão do projeto.

Nesses empreendimentos imobiliários cada idoso é morador (ou inquilino) e não paciente. Eles moram em apartamentos privados com banheiro, cozinha e porta, que pode ser trancada. Podem ter bichos de estimação, ter plantas e escolher seus próprios móveis. Enfermeiros, cuidadores e arrumadores são prestadores de serviços, o que muda completamente a relação de poder. Não são condomínios que isolam os idosos; pelo contrário, incentivam a convivência. Mas principalmente esses espaços dão aos idosos dignidade na velhice, mantendo o seu poder de escolha sobre o que gostam e sobre o que é importante para eles. A vida das pessoas mais velhas pode ser melhor do que é hoje. Os idosos podem viver com liberdade e autonomia. Podem viver em apartamentos, ao invés de leitos. Podem controlar suas necessidades ao invés de deixarem que seus cuidados os controlem. Tenho certeza que os números de depressão seriam bem menores.

As casas de repouso no Brasil foram pensadas para serem seguras, porém são vazias de tudo aquilo que é importante para quem vive lá. Precisamos pensar além não só na reparação da saúde, mas no sustento da alma. Precisamos pensar no combate ao tédio, à solidão e à sensação de impotência. Nossos idosos acabam em instituições que têm como objetivo tirar das famílias o fardo de cuidar de seus idosos e não têm como meta o que realmente importa para as pessoas que nela residem: fazer com que a vida continue valendo a pena mesmo quando estamos fragilizados, debilitados e não podemos mais nos virar sozinhos.

Foto: Divulgação

[ R2L ] Como se constrói uma sociedade inclusiva e gentil em relação aos idosos?
Essa sociedade se constrói com respeito e exemplo. Precisamos melhorar nossa abordagem com a velhice já que este é um processo natural. Envelhecer não significa ter tantas perdas como as que estamos internalizando e passando para nossos filhos. A idade não tem mais o valor de raridade. Antes os idosos detinham o conhecimento e a sabedoria e agora, com as tecnologias da comunicação, basta “darmos um google”. O conhecimento das pessoas mais experientes virou descartável e desnecessário. Com isso, o respeito diminui a cada dia. Nossos filhos e netos vêem isso acontecer quando tiramos a autoridade dos avós e os tratamos como crianças assim como nossos filhos. Eles internalizam isso quando abandonamos nossos idosos em casas de repouso… Não sou contra essas casas, sou contra o abandono de familiares lá. Contra o fato de as pessoas internarem seus parentes e não voltarem mais. (Sim, isso acontece).

Em muitas sociedades, os idosos não apenas inspiravam respeito e obediência como também eram responsáveis por rituais religiosos e detinham o poder político até sua morte. Os idosos eram tão respeitados que as pessoas mentiam sobre a idade para parecerem mais velhas… Olha que contrassenso comparado ao mundo atual.

Nós envelhecemos desde o dia em que nascemos. Precisamos pensar e nos preparar para isso. Só quando entendermos que cuidar dos idosos é cuidar de nós mesmos,  começaremos a ter uma outra relação com eles.

[ R2L ] Muitas pessoas dizem que se engajariam num projeto social se tivessem tempo. Você certamente tem outras ocupações e responsabilidades. Que conselho você daria para essas pessoas?
Um conselho muito simples: a vida exige urgência, e urgência é uma questão de prioridades. Queria muito ter feito o Rio Gentil com minha mãe ainda viva, mas a falta de prioridade não me permitiu. Sempre achei que no futuro eu faria e o futuro veio e puxou meu tapete. A vida não me esperou. Ela não espera. Cabe a cada um saber o que pode ser deixado para trás e o que definitivamente não pode. Ações sociais dão trabalho sim, exigem tempo, mas são redentoras e nos fazem um bem gigantesco. O engajamento em algum projeto existente é mais fácil, a demanda de tempo é menor e o prazer de ajudar é o mesmo. A grande dificuldade é encontrar esses projetos, e nisso que eu acho que o governo poderia contribuir. Existem muitos projetos precisando de voluntários e muitos voluntários precisando de projetos.

[ R2L ] O que você deseja para o futuro do projeto?
O que mais quero agora é regulamentar o Rio Gentil, para que possamos receber apoio da iniciativa privada. A partir daí, poderemos ampliar o projeto para outras casas de repouso sem comprometer o trabalho que já fazemos com a Casa de Betânia. Quero ajudar o máximo de idosos que pudermos, tirar um pouco do tédio, ouvir uma história, levá-los para fora de casa, mostrar a cultura, a dança, o teatro. Não temos a pretensão de dar sentido à vida de alguém, mas temos sim a intenção de dar pequenas doses de felicidade.

[ Bio ]
Vanessa Braun é idealizadora do projeto Rio Gentil, que promove passeios mensais para estimular idosos com ações de entretenimento.

[ Contato ]
https://www.facebook.com/RioGentil

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