ENTREVISTA:
EDUARDO KOBRA
[ DAS RUAS DE SÃO PAULO PARA O GUINNESS ]

"O Brasil é um dos grandes paises da arte de rua" (Foto: Divulgação)

[ R2L ] “Conhecido no mundo inteiro por utilizar cores vibrantes em suas artes realistas e caleidoscópios”. Essa frase é quase um aposto para o artista Eduardo Kobra, e repetida à exaustão a cada matéria com você. Que elementos essenciais à sua obra são importantes e normalmente pouco explorados?
Interessante… É verdade mesmo! Atualmente muitas pessoas comentam das cores, das formas geométricas e tudo mais. Porém essa é uma parte do meu trabalho, talvez a parte que ficou mais conhecida, mais popular. Mas o meu trabalho tem vários outros elementos que muitas vezes não são tão divulgados, e são importantes para mim da mesma forma. Como parte do projeto ‘Muro das Memórias’. Esses coloridos inclusive são um desdobramento desse projeto. Os muros das memórias muitas vezes são murais em sépia ou preto e branco onde eu falo da história das cidades, fazendo uma pesquisa sobre imagens retrô, vintage… Muitas vezes eles são também uma forma de protesto em relação a preservação do patrimônio histórico. E é uma parte importante, pelo menos pra mim. Outro tema é o dos direitos dos animais. Eu tenho vários murais que não utilizam essas formas e cores, mas são murais que falam sobre esse tema da agressão do homem ao meio ambiente. São painéis, por exemplo, de proteção às baleias, aos golfinhos, contra rodeios e touradas, e por aí vai. Outros projetos, como ‘Olhares da Paz’, são painéis parcialmente trabalhados com cores, mas têm partes em preto e branco. Enfim, meu trabalho tem essas outras facetas como o projeto de pintura de 3D no piso, que também não utilizam essas cores. São painéis com uma pintura anamórfica, uma imagem distorcida, tridimensional e são feitos com giz nas calçadas. Como eu trabalho muito com anatomia, com perspectiva, com profundidade e tal, existem vários outros estilos também.

[R2L] Como fica a relação espontaneidade x planejamento? Todo o conteúdo de um mural é planejado previamente?
Sim. E a forma também não é aleatória. Para chegar ao resultado de um painel como da Anne Frank, eu fiz mais de quarenta diferentes desenhos, com estudo de cores para entender de que forma isso se adapta melhor à história que eu estou contando. Aquele fundo texturado, por exemplo, não é uma simples textura, é a capa do diário dela. No caso do mural do Oscar Niemeyer, na Paulista, todas aquelas formas e cores são das obras dele. Eu sempre procuro essas associações no meu trabalho.

[R2L] E a tudo isso se soma a mensagem, tão importante quanto a obra em si…
No mural ‘Etnias’, no Rio, cada uma das figuras representa um continente. Nos olhos de cada uma delas existe uma linha verde e amarela porque está tudo representado aqui no Brasil. Cada cor é trabalhada de forma diferente, de acordo com a representatividade de cada uma das tribos que foi colocada ali. Um olhar mais atento ali vai perceber que não são só cores, existem também formas e outros elementos, como os continentes entre as figuras, que contam os detalhes da história que eu estou querendo contar com esse trabalho. Houve uma pesquisa bastante intensa para se chegar a esse resultado.

Inaugurado para os Jogos Olímpicos, o mural Etnias entrou para o Guinness como o maior do planeta. (Foto: Divulgação)

[ R2L ] O Etnias, no Boulevard Olímpico do Rio, foi oficializado pelo Guinness – o livro dos recordes mundiais – como o maior grafite do planeta. Além da repercussão natural em torno da sua arte, como você gostaria que essa conquista impactasse outros artistas e o mercado de arte urbana?
Para mim foi uma surpresa que o mural entrasse para o Guinness Book. Claro que foi uma surpresa super agradável, mas não era o meu objetivo. Essa conquista foi importante porque ela ajudou a levar para um número ainda maior de pessoas a mensagem por trás do mural: a união dos povos e a tolerância. O tamanho é secundário. Até porque a gente vê tantas obras importantes nas ruas, como as do Banksy, que às vezes são pequenininhas, feitas com estêncil, e utilizando apenas tinta preta, mas com mensagens realmente muito importantes. Por isso eu sempre procuro utilizar os espaços urbanos para passar algum tipo de mensagem.

[R2L] E como você descreve a principal mensagem desse mural?
A intenção maior é falar sobre a união dos povos, a beleza das etnias, que todos somos um, e que todos temos a mesma origem.

[ R2L ] Depois de trabalhar em diversos lugares do mundo, você já declarou ter um carinho especial por São Paulo (a sua cidade de origem) e Nova Iorque, que também tem uma forte presença de arte urbana. Que outros fatores fazem você se sentir “em casa” em uma cidade?
Olha, meu trabalho surgiu em São Paulo. São muitos anos pintando aqui. São Paulo possibilita esse tipo de arte, Nova Iorque também. Agora… eu tive uma experiência realmente interessante no Rio de Janeiro. E sem dúvida nenhuma o painel do Boulevard Olímpico foi o meu trabalho mais fotografado. Além disso, o carinho com que os cariocas me trataram me marcou bastante.

Sinceramente, não acredito que exista uma diferença grande [entre cidades]. Diminuiu um pouco a quantidade de paredes em alguns lugares, mas o carinho é o mesmo, a abertura da cidade para esse tipo de arte é a mesma. Tanto em São Paulo como no Rio, Belém, Belo Horizonte, Curitiba e tantos outros lugares… Todas elas têm artistas excelentes colocando seus trabalhos nas ruas. Com um olhar mais atento, a gente percebe que hoje em dia as cidades têm obras urbanas tão importantes quanto as que estão dentro das galerias. Acho que não há mais essa diferença entre o artista que só faz obras para galerias e os artistas que estão pintando nas ruas. Para mim é a mesma coisa. Inclusive eu acredito que as ruas representem hoje a principal galeria de arte que o mundo tem.

Especificamente com relação a São Paulo, eu tenho uma história de amor e ódio aqui. É a cidade que realmente me inspira, que me nutre. Embora eu já tenha recebido convites para morar em várias partes do mundo, eu continuo resistindo e permaneço aqui. Eu giro por todo lugar e sempre volto porque aqui está a minha família, as pessoas que eu amo. Viajo e gosto de retornar para deixar novos trabalhos estampados nos muros da cidade.

Cidades como Nova Iorque são obviamente importantes também. O grafite como eu conheço surgiu lá, né?!  Como hoje o meu trabalho está muito ligado à memória e à história de pessoas e locais, e a cidade valoriza muito as personalidades, a minha conexão só aumenta. Me sinto em casa lá.

[ R2L ] Na sua opinião, cidades com forte apelo natural – como o Rio de Janeiro – valorizam menos a arte urbana?
Pintando nas ruas durante tantos anos, um objetivo que eu tenho é despertar o olhar das pessoas. Porque através dessas pinturas, muitas vezes a pessoa começa a perceber outras coisas belas na cidade: um detalhe da arquitetura, um jardim bem cuidado, uma calçada bem tratada. Em cidades como o Rio de Janeiro, com tantas belezas naturais, as pessoas já têm uma visão um pouco treinada para isso, e então acabam associando e dando mais força ainda para o trabalho.

Mural em homenagem ao piloto Ayrton Senna em São Paulo. (Foto: Divulgação)

[ R2L ] Além do termo grafiteiromuralista, hoje você é apresentado simplesmente como artista. Essa mudança é reflexo da percepção do público em relação à arte urbana?
São muito anos, né?! São vinte e oito anos pintando nas ruas. Já recebi diversos rótulos, não só de grafiteiro, muralista… mas também de vagabundo e outras coisas desse tipo. Fui pichador durante muito tempo, grafiteiro porque fazia de forma ilegal, e finalmente muralista, porque os trabalhos passaram a ter permissões para serem feitos. Atualmente muitas pessoas têm colocado meu trabalho como “artista plástico Eduardo Kobra” sim, mas de qualquer forma eu continuo sendo o mesmo. Continuo utilizando a cidade como suporte para o meu trabalho, o que obviamente é um privilégio, e ter o apoio das pessoas é melhor ainda. Não é uma questão de evolução. A gente vê que na história da Street Art isso já aconteceu lá atrás com Jean-Michel Basquiat, com Keith Haring e com tantos outros nomes importantes que tiveram que batalhar durante muito tempo. Esse reconhecimento das pessoas vem por conta disso também. Esses artistas conseguiram esse tipo de notoriedade depois de muitos e muitos anos batalhando em prol da evolução do próprio trabalho. Eu passei por todos esses processos também.

A arte de rua surgiu de uma forma totalmente marginal. Eu mesmo cheguei a ser detido três vezes aqui em São Paulo. Vários outros artistas de Nova Iorque – que depois se tornaram ícones mundiais – também passaram por situações similares. Alguns também eram moradores de rua, e levaram muito tempo para ter seu trabalho reconhecido. A evolução dos artistas nas ruas é algo realmente notável. E inquestionável. Existe uma grande quantidade de artistas talentosos pintando nas ruas. Muitos há vinte, trinta anos. Eu acho que esse foi o grande fator determinante que fez com que acontecesse toda essa abertura global para esses trabalhos. Nós estamos na melhor fase da história da arte de rua e eu acredito que isso tende a evoluir cada vez mais. Hoje você vê lugares tradicionais que não toleravam a arte de rua, como várias cidades na Itália, Emirados Árabes e Japão, e tantos outros abrindo as portas para esse tipo de trabalho. E a mesma coisa vai acontecer em todos os níveis: galerias, museus e tudo mais. Porém, o interessante para o artista que está na rua é continuar nas ruas. Ele pode até sair das ruas e, por algum momento, participar de uma exposição num museu importante, mas a validade mesmo é quando ele permanece no seu local de origem. A arte de rua tem que permanecer nas ruas.

[ R2L ] O grafite já foi recriminado, ascendeu como forma de expressão cultural e hoje está em voga nos grandes centros. Pela sua natureza (imóvel, permanente e dificilmente negociável) ainda é visto como um universo isolado do mercado tradicional de arte. O que esperar da arte urbana no futuro?
Bom, a questão comercial do trabalho é muito pessoal de cada artista porque obviamente que um muro não pode ser transportado dali. Mas atualmente você vê artistas de rua pintando em diversos outros tipos de suporte, esses sim são vendidos em leilões, galerias e tantos outros lugares. Então é uma questão da conduta, do pensamento de cada artista. Como a aceitação das ruas é crescente, artistas que só pintavam em galerias e ambiente fechados, hoje estão migrando para a cena urbana buscando a visibilidade das ruas.

[ R2L ] O Brasil desperta grande interesse internacional na música, nos esportes, na gastronomia… Mas poucos são os artistas plásticos brasileiros realmente considerados globais. De que forma isso interfere ou influencia o seu trabalho no exterior? Ajudar a aumentar o interesse do mundo à arte brasileira é importante para você?
Particularmente, eu tenho o maior prazer de ser brasileiro. Tenho o orgulho de poder conhecer tantos países, tantas culturas, tantos lugares e poder deixar a minha obra lá, assinada e acompanhada por uma bandeira do Brasil. Existe uma grande abertura nessa questão da Street Art, e muitos artistas talentosos, como Os Gêmeos, também já levaram o nome do nosso país para o exterior. O Brasil é um dos grandes paises da arte de rua e vai ainda melhorar.

Kobra e uma das suas pinturas 3D. (Foto: Tati Demozzi)

[ R2L ] Você é precursor da pintura 3D sobre pavimentos no país e pesquisa materiais reciclados e novas tecnologias constantemente. O que esperar no seu acervo para os próximos anos?
É uma pergunta difícil de responder porque eu não tenho nada definido. Acordo todo dia desempregado. Eu não sei o que vai ser do meu próximo dia, então eu vou descobrindo, vou criando novas coisas. Eu sou hiperativo e me irrito facilmente com as coisas que eu fiz ou estou fazendo. Sempre quero melhorar, sempre quero evoluir, sempre quero criar coisas melhores. É isso que me motiva. Eu gosto muito do desafio, de pensar em formas para utilizar melhor a cidade, de forma mais criativa e interessante, que tipo de material utilizar… Estou sempre em busca do novo, e isso é o que dá sentido ao meu trabalho. Realmente não sei o que vai acontecer, mas eu quero melhorar.

[ R2L ] Você é declaradamente apaixonado por objetos antigos e livros de fotos históricas, mas sabemos que o Brasil nem sempre valoriza a sua história. Que tipo de imagem você gostaria que as futuras gerações tenham do artista Eduardo Kobra?
Bom… Eu sou um cara simples, um sobrevivente, um cara da periferia. Um cara que passou por todas as dificuldades que qualquer pessoa de uma família simples e pobre passa. Lutei pelo meu sonho, pelo que eu acreditava. Quebrei muitos preconceitos, muitas barreiras, aprendi realmente na batalha da vida e eu procuro transmitir isso através dos meus trabalhos. Eu procuro pintar isso e pintar todas as coisas que eu vivi, despertando a consciência das pessoas para um mundo melhor, um olhar melhor para o próximo, uma consciência ambiental, uma melhor relação familiar, a proteção dos animais. Enfim, para que as pessoas tornem o mundo um lugar melhor para as próximas gerações. Essa é a imagem que eu quero deixar em relação ao meu trabalho.

Confira algumas das obras do artista espalhadas pelo mundo:

Rio 2016™ / Time Lapse "Etnias" / Eduardo Kobra

[ Bio ]
Eduardo Kobra é muralista e um dos maiores ícones mundiais de arte urbana. Sua obra Etnias, na zona portuária do Rio de Janeiro, está no Guinness World Records como o maior grafite do planeta.

[ Contato ]
www.eduardokobra.com

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